Família Perocco

Página

Entrevista com Domingos Perocco Netto para o Museu da Pessoa

P/1 – Boa tarde, senhor Domingos. Para começar, eu gostaria que o senhor dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Domingos Perocco Netto. Perocco com dois “c”s e Netto com dois “t”s. Isso tem sido um problema na minha vida, porque sempre tem que explicar isso. Sou nascido em Guaranésia, Minhas Gerais, em 6 de fevereiro de 1934.

P/1 – O senhor lembra o nome de seus avós?

R – Lembro. Eu sou filho de Torindo Perocco e Abnair Fragoso Perrocco, ele industrial, ela ex-funcionária da prefeitura de Guaranésia e, após o casamento, era do lar. Meus avós paternos são Domênico Perocco e Maria Luigia Calegari Perocco, um casal de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil em 1893, 1894, se estabeleceram como agricultores em uma fazenda em São José do Rio Pardo. Em 1900, fugindo da febre amarela que estava entrando no Estado de São Paulo, se esconderam em Guaranésia, uma pequena cidade de Minas Gerais. Em 1905, fruto do trabalho, ele já instalava a primeira Fábrica de Macarrão Perocco, em Guaranésia. Minha avó o acompanhou e cuidava dos filhos. Meus avós maternos são Alonso Fragoso e Maria Pereira Guimarães Fragoso. Ele era coletor, ela era diretora do Grupo de Guaranésia.

P/1 – Coletor?

R – Era funcionário da Coletoria Estadual. E ela era diretora do Grupo de Guaranésia.

P/1 – Grupo escolar?

R – Do Grupo Escolar de Guaranésia. Quer mais alguma informação a respeito?

P/1 – Tudo em Guaranésia?

R – É, a família, meu pai, minha mãe. Meus avós maternos são de Itajubá, são parentes longe do Venceslau Brás, que foi Presidente da República, e foram nomeados em Itajubá para esses cargos, que eles foram, casados, exercer em Guaranésia.

P/1 – Quanto a seus pais, o nome dos seus pais?

R – Meus pais… eu já falei. Meu pai Torindo Perocco e minha mãe Abnair Fragoso Perrocco. Meu pai industrial, meu pai desde criança trabalhava na fábrica de macarrão, que era uma praxe da família, aos oito anos já, segundo ele me contou, ele era o encarregado de dar água e comida para os animais que tracionavam a masseira, que produzia a massa para o macarrão. Ele trabalhava das oito às duas da manhã, à noite. E minha avó, por volta da meia-noite, sempre levava um sanduíche de pão com mortadela para ele comer. E o trabalho sempre foi o forte da minha família. Minha mãe estudou no Grupo junto com ele. Com dez anos, por necessidade da família, que eram em nove filhos, eles abriram um pequeno empório em Guaranésia, ela e o irmão mais novo, o doutor Wilson Fragoso que hoje é aposentado do Banco do Brasil, e tocavam a mercearia. Posteriormente, com quatorze anos, ela foi convocada por um fazendeiro de Guaranésia que tinha aberto uma loja, um armarinhos, que era o supermercado daquele tempo, vendia de tudo. E ela foi convidada para ser a tesoureira da loja de armarinhos. Quatro anos depois, o doutor Pereira Lima foi eleito prefeito de Guaranésia e, dada a eficiência da minha mãe na loja, ele levou para a secretária dele na prefeitura. Com o casamento dos dois, em 1933, meu pai tirou a minha mãe da prefeitura, foi ser mãe. Meu pai, posteriormente ao Grupo, foi fazer o ginásio e a escola de comércio em São Sebastião do Paraíso, no Colégio Paraisense, que era bastante famoso na época. Formou-se, da turma dele, apenas cinco, com ele, que conseguiram se formar técnicos em contabilidade. E ele voltou para Guaranésia para ser o responsável pela escrita fiscal da fábrica de macarrão. Em 1929, meu avô, numa fase de expansão, mandou instalar uma fábrica em São José. Ele tinha uma certa admiração por são José porque os dois filhos mais velhos de meu avô eram nascidos lá. Os demais foram nascidos em Guaranésia, para onde ele tinha se mudado. E a fábrica de São José foi inaugurada em 1932. A de Guaranésia vendia para o estado de Minas e a de São José vendia para o estado de São Paulo. O meu pai fazia a escrita das duas fábricas, mas com o crescimento da fábrica de São José, meu avô em 1936 determinou que ele fosse para São José para auxiliar na administração da fábrica. Então a nossa família foi para São José. Eu fui para São José com dois anos. Eu tenho uma irmã mais… eu tenho apenas uma irmã, Carmem Perocco Dias, hoje viúva, que é dois anos mais nova que eu. E nós praticamente fomos criados em São José. Fiz o ginásio, colegial, escola de comércio, tudo em São José do Rio Pardo.

P/1 – Antes do senhor avançar, deixa eu voltar um pouco quando o senhor estava lá em São José, criança. Como era a casa do senhor, a rua, como era isso?

R – Nós mudamos para São José em junho de 1932. Meu pai alugou uma casa na Rua Campos Salles, que ficava a três quadras da fábrica de macarrão. São José naquele tempo não tinha as ruas calçadas. Então, para ir trabalhar em tempo de chuva sujava roupa, espirrava barro. Então minha mãe achou que nós precisávamos comprar uma casa perto da fábrica. E meu pai acabou comprando uma casa na Rua Rui Barbosa, a 80 metros da fábrica, que naquela época custou 32 contos de réis. Meu pai tinha 24 contos, e meu avô emprestou os oito contos que faltavam para ele comprar a casa. Meu pai trabalhou na fábrica, nós ajudávamos. No meu tempo de garoto a gente vendia. A fábrica de São José teve uma expansão muito grande, principalmente por causa da Guerra. Nós exportávamos as carnes nossas para os soldados na frente de batalha, não só soldados brasileiros. Não se tinha carne. E os nossos produtos nobres iam para os exércitos dos Aliados.

P/1 – Mas não era massa? Era carne também?

R – Era arroz, feijão, milho, café. Então a massa de macarrão passou a ser um elemento básico. Porque massa tem no mundo inteiro. E produtos, laranja… Então o macarrão teve uma procura muito grande. Então tanto eu como minha irmã, minha mãe, minha tia, eram dois irmãos que tocavam, o Antônio e meu pai, Torindo, minha tia Emília e os três filhos, nós todos ficávamos no balcão e vendendo macarrão até acabar.

P/1 – Esse balcão, ele fazia parte, era junto da fábrica? Como era a fábrica?

R – A fábrica era um prédio de dois andares, construído especialmente para ser fábrica de macarrão, com a tecnologia mais moderna que tinha na época. Foi a primeira fábrica de macarrão do interior paulista. A fábrica de São José do Rio Pardo, com as máquinas que tinha.

P/1 – O nome da fábrica qual era?

R – A fábrica era Massas Alimentícias Domingos Perocco. Com a morte do meu avô, os irmãos sucederam em São José do Rio Pardo, com Perocco Irmãos Ltda., e em Guaranésia com Irmãos Perocco Ltda.. Eram quatro irmãos em São José, e cinco em Guaranésia. Os quatro de São José acabaram falecendo, e nenhum dos filhos quis seguir a carreira de macarroneiro. Então, com o falecimento de meu pai, que foi o último, a fábrica fechou em 1968, se não me engano.

P/1 – Mas deixa eu voltar lá, o senhor atrás do balcão. Quantos anos o senhor tinha?

R – Eu tinha… nós entramos na Guerra em 42 ou 43, então eu tinha oito, que eu sou de 34. Nove, dez. E minha irmãzinha tinha sete. Então a gente ficava buscando macarrão. Eu trabalhava lá em cima empacotando macarrão. As máquinas… dando detalhes do porquê da tecnologia. O macarrão na época era feito em etapas. O macarrão hoje é automatizado. A Fábrica Basilar, que é a maior fábrica brasileira de macarrão hoje, entra farinha e água de um lado, sai o macarrão ensacado do outro. No nosso tempo de macarrão, nós tínhamos aquilo que se chamava masseira. Era uma espécie de bacia de dois metros e meio de diâmetro, girada por um motor, e onde um depósito, assentado no lugar mais alto, você jogava o saco de farinha, e em cada massada você punha dois sacos de farinha e o volume de duas latas d’água. Esse depósito tinha um girador, como um batedor de bolo, que misturava água com farinha até fazer um produto mais ou menos denso e uniforme. E ela deitava, jogava esse produto na massa que circulava. Essa massa dispunha de dentes fixos laterais que iam revirando a massa. A massa girava, chegava em um determinado ponto tinha uma peça que virava a massa de cabeça para baixo, e os dentes iam amassando. Então ela ficava ali por quinze, vinte minutos, parava, depois cortava-se aquela massa em pedaços de 70, 80 centímetros, enrolava aquilo e fazia um rolo desse tamanho. Aí ia para a prensa. A prensa, as máquinas eram ferrante. Eram máquinas modernas, compradas zero quilômetro para a fábrica. A ferrante tinha um pistão de ar em cima, e embaixo o cilindro onde você punha a massa. Você subia numa escada, pegava aqueles rolos, iam três rolos daquele em cada cilindrada. No pé, embaixo, tinha a forminha. Se o macarrão ia sair furadinho, maciço… como é que chama hoje? Então a máquina vazava o macarrão por pressão; tinha uma compressão numa área de 25 centímetros de forma, eram três toneladas para empurrar a massa; tinha a bomba; o macarrão saía; à medida que o macarrão saía o pessoal cortava, com mais ou menos um metro e 20 de comprimento. Tinha um bambuzinho que você punha, que você jogava o macarrão em cima, você esparramava aquilo. Depois daquilo, esparramado, ia para o sol. A fábrica tinha um pátio de mais ou menos mil metros quadrados de cavaletes de madeira onde, a medida que ia produzindo macarrão, você punha no sol para secar. No fim do dia esse macarrão era trazido para um quartinho fechado e úmido, que era para o macarrão curar. No dia seguinte esse macarrão subia para o segundo andar. Havia os mesmos tipos de andaime onde você ia pondo o macarrão, onde aí ele curava durante uma semana. Então, na parte superior… uma semana são seis dias, e tinha seis quartos. Então cada dia você punha o macarrão em um quarto. E você, no quarto curado, você levava a mesa, com a balança, tirava aquilo lá em cima de um balcão, pegava a quantidade de macarrão compridinho, embrulhava de quilo em quilo, tinha a folha de Macarrão Perocco, embrulhava, amarrava e empilhava. Depois, lá de cima descia para a seção de embalagem. Nós tínhamos caixotes prensados, comprados no Norte de Goiás, Massas Perocco, padrão da fábrica de São José e da fábrica de Guaranésia. Eu gostava de fazer o caixote. Eu era bom em prego. Então eu era moleque, fazia caixote para pôr o macarrão. E a expansão nossa em São José foi muito grande. Nós começamos vendendo macarrão em São José do Rio Pardo, nas cidades vizinhas, e com o tempo fomos subindo. Fomos vendendo em Casa Branca, São Simão, Ribeirão Preto, Igarapava, Ituverava, Franca, Sacramento. E entramos em Minas. Porque a nossa fábrica de Guaranésia só vendia para o Sul de Minas, Passos, Varginha, mas não subia. Então nós entramos em Minas. Então nós fazíamos Uberaba, Uberlândia, Araguari. E entramos para Goiás, com a nossa fábrica, o nosso produto. Então, Catalão, Anápolis. Fomos parar em Anápolis. Em Anápolis nós tínhamos um cliente chamado Barbaan Helou, eu nunca esqueço esse nome. Era o nosso maior cliente. E o Barbaan Helou, como Anápolis está mais ou menos próximo do Rio Araguaia, o Barbaan Helou exportava mercadorias para o Norte do país. Então, o nosso macarrão, via Barbaan Helou, pegava os barcos do Rio Araguaia e eram vendidos no Pará e no Amazonas. Em um dos cursos meus, em Brasília, um dos colegas falou: “Eu conheço o Macarrão Perocco, eu comi. Eu comi o Macarrão Perocco”. E eu gosto de contar isso porque havia muito orgulho da nossa parte nesse produto. Quer dizer, nós fomos, minha família, meus pais, minha família paterna é de imigrantes, e minha família materna vem de gente importante, de Presidente da República, e os dois se casaram, e resultou no que eu sou hoje. Quer dizer, eu dou muito mais valor hoje aos que estão embaixo do que aos que estão em cima. Toda a vida como bancário eu sempre dei muito mais importância aos que estão embaixo do que aos que estão em cima. Isso foi um fruto da minha observação.

Para saber mais: Museu da Pessoa

12 comentários sobre “Família Perocco

  1. LUIZ FERNANDO CARNEIRO

    Poxa vida, fico muito feliz ao lembrar da minha infância muito pobre vivida nesta linda cidade de Guaranésia. Embora de família humilde, tive o prazer de conviver com os irmãos Perocco. Fui Aluno do Dr. Silvio Perocco, Dona Piida. Convivi com o Guilherme, André e o Eduardo, caçula deles. Tomei conhecimento dos trágicos acidentes envolvendo a família. Gostaria de entrar em contato com formandos do Grupo Escolar Carvalho Brito, na década de 1961. Meu email: lfcluizfernandocarneiro@gmail.com

  2. Sergio Luiz Ferreira Perocco

    DESEJAVA MANTER CONTATO , POIS DEVEMOS SER PARENTES.
    MEUS AVOS PEROCCO BENJAMIM E ANGELINA GASBARRO PEROCCO, FORAM PARA ALEM PARAIBA , ONDE CASARAM EM 1897.ELA ORIUNDA DE L’aquilla e ele de Motta Livença

  3. um fato interessante sobre as fábricas de Macarrão Perocco, de Guaranésia, foi um incêndio que houve mais ou menos em 1960. Eu morava ao lado,na rua Capitão Gabriel 456. Meu pai era muito amigo dos irmãos Perocco. Eu ia com ele quando ele ia conversar com eles no escritório da fábrica. O mais velho era Guilhermino, se não me engano. Outro era o Atílio. Parece que havia um outro, mas não me lembro o nome. vou perguntar pro Eduardo Perocco, que agora está em Angola. Eu me lembro de acordar de madrugada e ir para a rua quando as chamas subia da fábrica.

  4. joana

    sou a joaninha neta da sá joana que fazia muito sabão hoje estou c/67 anos e agradeço muito aos peroco antigos que muito nos ajudaram dando- macarrão p/ matar nossa fome boa sorte a todos

  5. Orlando

    Desse senhor da foto. não me recordo. Entretanto quando vivi em Guaranésia, pois nasci aí em 1943, portanto nove anos após ele, conhecí e convivi com várias pessoas da família Perocco. Dr. João Perocco, por exemplo foi meu professor de desenho e matemática na ginásio estadual de Guaranésia, onde estudei até sair para morar em vários lugares do Brasil. Chamo-me Orlando Ciuffi Filho, cujo apelido na época era Polarzinho porque meu pai era o dono da Leiteria Polar e ganhei esse apelido. Hoje bateu-me uma saudade enorme dessa cidade que nunca saiu de meus pensamentos embora eu nunca mais voltasse e vendo sobre os nomes conhecidos tenho mandado abraços aos antigos conhecidos e seus descendentes. Que todos os Guaranesianos sejam muito feliz assim como sempre fui aí e continuo sendo com meus atuais 70 anos de idade..

Deixe um comentário. Sua opinião é muito importante!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s